A Mixtura da Irreverência

E ao dia 20 o Basqueiro apresenta-se rebelde, orgulhoso e ambicioso. De forma complexa o “anti-herói” dispõe as suas figuras centrais na ordem divina, propondo liberdade e escolha como temas do seu jardim paradisíaco colocando os seus anjos rebeldes nos seguintes papéis:

  • OUPAOUPAOUPA (PT) -Palco Misturadora.

Projeto ousado não convencional que define novas “soundscapes”, ainda em afirmação, o coletivo destaca-se por uma proposta singular que cruza jazz contemporâneo, beatbox e rock alternativo numa linguagem própria, vibrante e imprevisível.

A essência do grupo reside numa fusão improvável, mas surpreendentemente coesa. Partindo da improvisação jazzística, incorporam a vertente rítmica do beatbox como elemento central, transformando a voz humana num instrumento total — simultaneamente percussivo, melódico e textural. Esta abordagem é amplificada por influências do rock alternativo, que introduzem tensão, ruído e liberdade formal ao conjunto.

O resultado é uma experiência sonora dinâmica e física, onde os limites entre composição e improvisação se diluem. A sua actuação como um organismo vivo, em constante mutação, onde o corpo do músico — e a sua respiração — é o motor rítmico de toda a arquitetura musical ideal para esta génese basqueiral.

Nestes festivais independentes os OUPAOUPAOUPA encontram terreno fértil para a experimentação, assumindo-se como um laboratório criativo, onde a voz ganha uma nova dimensão no presente da música contemporânea.

 

  • KHEPER MOON(PT) – Palco Misturadora

Surgem os KHEPER MOON, um dos projetos mais curiosos da nova geração. O trio nascido no final de 2025, no contexto da residência artística Misturadora 1.0, ligada ao festival Basqueiral — um ponto de encontro improvável para três caminhos distintos dentro do circuito underground nacional.

A sua música foge a definições fáceis. Movida entre o jazz mais exploratório, o noise rock e a eletrónica experimental, mas sem se fixar em nenhum desses territórios. Em vez de temas convencionais, criam paisagens densas e imersivas, onde drones prolongados, sintetizadores tensos e uma bateria crua coexistem num equilíbrio instável, sempre à beira de se transformar.

Formado por Anja Calas, Manuel Guerra e Pedro Lopes, o trio funciona quase como um corpo único em constante adaptação. A voz, processada eletronicamente, mistura-se com camadas de teclados e uma percussão física e direta, num diálogo que alterna entre momentos mais etéreos e outros mais viscerais.

A sua música pode ser descrita como um “voo lento entre o peso da terra e a vertigem do espaço” — uma imagem que faz sentido sobretudo ao vivo, onde tudo ganha outra escala. A passagem pelo Basqueiral 2026 acaba por ter um peso especial: mais do que uma estreia, é a assunção clara de um projeto que começa a ocupar o seu lugar no panorama experimental português.

 

  • LOS SARA FONTAN (ES) Palco Museu.

Vanguardistas, singulares e radicais dentro do circuito alternativo, os Los Sara Fontan são um duo espanhol com base em Barcelona que construiu uma identidade artística à margem das normas da indústria. Recusam lançar discos, seja em formato físico ou digital, concentrando toda a sua criação na intensidade irrepetível do palco.

Formados por Sara Fontán, no violino, e Edi Pou, na bateria, exploram uma linguagem que cruza post-rock, math rock, eletrónica experimental e música contemporânea. Com apenas dois instrumentos, criam uma massa sonora surpreendentemente densa e expansiva. O violino — amplificado e processado em tempo real — transforma-se em sintetizador, guitarra distorcida ou textura atmosférica, enquanto a bateria guia e tensiona todo o fluxo rítmico.

A sua abordagem assenta numa valorização total do presente: cada concerto é único, moldado pela improvisação, pela repetição hipnótica e por uma ligação muito direta ao público. Essa aposta na “unicidade” tornou-os presença recorrente em festivais europeus de referência, onde a sua intensidade performativa se impõe.

Mais do que um projeto musical, os Los Sara Fontan são uma vivência — efémera, física e profundamente imersiva.

 

  • SUMMER OF HATE (PT)- Palco Museu

No coração da cena alternativa portuguesa, os Summer of Hate afirmam-se como uma das propostas mais intensas e envolventes do shoegaze contemporâneo. Oriundos do eixo Espinho/Porto e no ativo desde 2016, o coletivo rege-se por um princípio simples e eficaz: criar beleza sonora através do volume e da densidade.

A sua música assenta numa autêntica “parede de som”, onde múltiplas camadas de guitarras se sobrepõem para gerar um ambiente simultaneamente melódico, ruidoso e hipnótico. Influências que vão do shoegaze clássico ao post-punk britânico, passando pela psicadelia dos anos 60 e por ritmos de inspiração global, convergem numa linguagem própria, expansiva e emocionalmente carregada.

Em palco, essa dimensão atinge outro nível. Com uma formação alargada — João Martins (direção musical, guitarra e segundas vozes), Laura Calado (voz, composição e letras), Pedro Lopes (bateria), Fábio Pereira (baixo), Xavier Valente e Ricardo Fonseca (guitarras -destacando-se o uso simultâneo de três guitarras —, os Summer of Hate criam concertos imersivos e fisicamente impactantes, onde a intensidade sonora é uma experiência quase sensorial. A voz etérea de Laura Calado, transforma-se num “anjo” que paira sobre este mar elétrico, criando um contraste entre delicadeza e caos.

Com o ambicioso Blood & Honey (2026), um álbum duplo que alterna entre experimentação e acessibilidade melódica, a banda reforça o seu lugar como uma das forças mais marcantes do underground nacional.

  • GROTE GEELSTAART (NL) Palco Basqueiral

Os holandeses Grote Geelstaart surgem como uma proposta imprevista e desafiante — um caos organizado, mas profundamente insubmisso. Oriundos da província da Zelândia, o quinteto tem vindo a afirmar-se pela sua abordagem frenética ao noise rock e ao psicadelismo, marcada por estruturas rítmicas invulgares e uma energia altamente contagiante.

A sua sonoridade nasce de uma fusão instável entre math rock, pós-punk e ruído instrumental, frequentemente comparada a um cruzamento improvável entre a excentricidade dos Talking Heads e a complexidade rítmica dos black midi. O resultado é uma música angular, mutante e carregada de tensão, onde mudanças súbitas e padrões desconstruídos mantêm o ouvinte em constante alerta.

Em palco, essa intensidade traduz-se numa presença física e visual marcante. Vestidos com camisas brancas e gravatas pretas — uma estética aparentemente disciplinada —, revelam antes uma desobediência organizada, criando um contraste deliberado entre contenção visual e explosão sonora. Esse jogo reforça o carácter quase teatral do projeto.

As suas composições exploram o absurdo do quotidiano com um toque dadaísta, tanto nas letras como nos ritmos de dança desconcertantes, acompanhados por um desenho de luz que amplifica a experiência sensorial.

Com lançamentos recentes e uma presença cada vez mais consolidada em festivais europeus, os Grote Geelstaart afirmam-se como um dos nomes mais excitantes da nova vaga experimental.

  • SUNFLOWERS (PT) -Palco Museu

Inquietude, teu nome é SUNFLOWERS. Das bandas mais intensas e prolíficas da última década. Formado no Porto em 2014, o trio construiu uma trajetória marcada pela experimentação constante e por uma ética DIY incansável, tornando-se uma presença fundamental no circuito underground nacional e europeu.

A evolução sonora do grupo reflete essa inquietação. Partindo de uma base inicial ligada ao surf rock, garage e punk, os SUNFLOWERS expandiram progressivamente o seu universo até alcançarem uma identidade mais crua e abrasiva. Hoje, o seu som é uma colisão energética de noise-punk, psicadelismo e art-rock, onde o feedback das guitarras, as linhas de baixo convulsivas e as vozes intensas se fundem numa massa sonora densa e caótica.

Guiados pelo lema “Everything louder than everything else”, o trio — Carlos de Jesus, Carolina Brandão e Frederico Ferreira — transforma cada atuação num exercício de volume, tensão e libertação. Esta intensidade atravessa tanto o palco como o estúdio. Verdadeiros atletas de alta performance, gerem a dinâmica com precisão, abrandando antes do desfecho para respirar com o público e, de seguida, mergulhar de novo num impulso final de energia.

Com um percurso discográfico sólido, culminando em You Have Fallen… Congratulations! (2025), editado pela Fuzz Club Records, os SUNFLOWERS fortalecem o seu estatuto como uma das bandas mais ruidosas, livres e relevantes da música alternativa portuguesa contemporânea.

 

  • DITZ (GB) -Palco Basqueiral.

Os DITZ destacam-se como uma das bandas mais viscerais e intensas saídas de Brighton no cenário do pós-punk britânico contemporâneo dos últimos anos,. Formado a meio da década de 2010, o quinteto construiu uma reputação sólida graças a atuações ao vivo caóticas e arrebatadoras, onde a energia  física e crua assume o controlo.

A sua sonoridade move-se num território instável entre o noise rock, o pós-punk e ecos de hardcore das décadas de 80 e 90. Ritmos pesados e angulares sustentam guitarras saturadas de efeitos, criando um ambiente simultaneamente denso, agressivo e atmosférico. As constantes quebras rítmicas e variações dinâmicas conferem às suas composições uma sensação de tensão permanente, capturando o ouvinte num fluxo imprevisível.

Liderados pelo vocalista Cal Francis, cuja voz crua, distorcida e agressiva resulta do uso de leve distorção, compressão intensa e um reverb sujo e atmosférico, os DITZ encontram na performance ao vivo o seu verdadeiro habitat. Os seus concertos, intensos e imprevisíveis, tornaram-se a sua assinatura, consolidando o seu estatuto na cena alternativa europeia.

O álbum de estreia The Great Regression (2022) colocou-os imediatamente sob o radar da crítica internacional, enquanto Never Exhale (2025) revela uma evolução madura, moldada pela experiência constante em digressão.

Neste festival foram venerados como uma força inquieta e essencial do rock contemporâneo, um projecto que transforma instinto e dissonância numa linguagem própria.

 

  • LEROY SE MEURT (FR) – Palco Museu

 

Os Leroy Se Meurt um dos projetos mais intensos e hipnóticos da atualidade no subsolo da eletrónica europeia. Oriundos de Paris, o duo criou uma identidade sonora marcada pela fusão entre a crueza do punk e a pulsação mecânica da EBM (Electronic Body Music) clássica, criando um universo sonoro simultaneamente físico e austero.

A sua música assenta numa estética implacável: caixas de ritmo pesadas, sintetizadores analógicos abrasivos e loops repetitivos que evoluem até ao limite da exaustão. Sobre estas estruturas, surgem vozes declamadas em francês — entre slogans e fragmentos narrativos — que reforçam o ambiente tenso e urbano das suas composições. O resultado é um som direto, sem concessões, pensado tanto para a contemplação como para o movimento.

Com álbuns como Voué à rouiller (2023) e Hier Pour Toujours (2025), o duo – Volkan Ergen e  Mathieu Laurent-  consolidou a sua presença na cena eletrónica underground europeia, apoiado por editoras de culto como a Mannequin Records.

Em palco, os Leroy Se Meurt transformam a teoria em experiência física. Volkan Ergen converte o Palco Museu numa pista de dança, como se se tratasse de um ritual industrial vindo de um clube subterrâneo. Há momentos em que o ritmo assume um caráter quase compulsivo, arrastando o público para dentro da performance e convidando-o, literalmente, a subir ao palco.

 

  • SANTA MUERTE (PT) -No centro do público.

Continuando na mecânica do clubbing, o Basqueiral encerra com um espetáculo simultaneamente intimista e físico: o punk rave dos Santa Muerte, diretamente do underground do Porto. Um projeto híbrido que cruza a eletrónica com a atitude visceral do punk.

A linguagem da dupla assenta numa base minimal e repetitiva, onde ritmos programados, texturas sintéticas e estruturas em loop se expandem por acumulação. Não há aqui preocupação com narrativas tradicionais ou desenvolvimento melódico — o foco está na pulsação, na tensão e na construção de um estado contínuo. O som surge cru, mecanizado, quase funcional.

A performance rompe com o formato convencional: sem palco, o dispositivo instala-se no centro do público, sem divisórias — uma espécie de fogueira contemporânea, onde todos orbitam em redor do som. É essa presença que cria o espaço de interação, num exercício sem concessões, orientado para a intensidade e para a comunhão com a dança.

Um espetáculo que reduz a música ao essencial: corpo, ritmo e energia partilhada. Mais do que um concerto, afirma-se como um gesto. No centro, uma configuração simples — mesa/controladores/sampler e guitarra — sustentando uma prática decididamente fora do formato tradicional.

Os Santa Muerte provam que a estética do clubbing mais subterrâneo permanece viva e ainda profundamente transformadora.

 

No final, o Basqueiral continua a existir entre o caos e a harmonia — como um jardim quase divino, habitado por intervenientes rebeldes — sempre com a promessa redentora de que, para o ano, há mais Basqueiro.

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Texto: David Costa

Fotos: Mário Gouveia