A Solenidade do Ruído: a Fúria dos Cat Soup e o Reinado dos BRUIT≤

No mito de Prometeu encontramos uma das histórias mais importantes da mitologia grega, simbolizando o conhecimento, a ousadia e o sacrifício em benefício da humanidade. Com o fogo sagrado roubado aos deuses para o entregar aos homens, criou-se o significado e o símbolo da razão, da ciência, da sabedoria e da luz do conhecimento contra a ignorância. No ato de Prometeu personifica-se a rebeldia do indivíduo que desafia o poder tirânico para alcançar a evolução e a liberdade coletiva.

Prometeu era imortal e foi condenado pelo seu desafio aos deuses, mas esse ato perpetua-se ainda hoje. Nos concertos dos Cat Soup e dos BRUIT≤, realizados no M.O.U.C.O. no dia 10 de setembro de 2026, encontrou-se uma manifestação contemporânea desta mesma chama: o som de ambas as bandas, esculpido numa estética de paisagens sonoras puramente instrumentais, culminou numa energia que exemplifica esse fogo divino agora pertencente à humanidade.

Passemos a descrever o dinamismo e a tensão gerados ao longo da noite, começando pela banda de abertura, os Cat Soup. Trata-se de uma das propostas mais singulares e cativantes do circuito underground portuense. Formado em 2015, este quinteto instrumental tem vindo a construir um percurso sólido, desenhando paisagens sonoras onde a precisão técnica do math rock se cruza naturalmente com o peso e a atmosfera do post-rock e do rock progressivo.

A identidade do grupo assenta numa arquitetura musical sem voz, mas longe de ser silenciosa. Em vez de linhas vocais tradicionais, a banda recorre a dinâmicas rítmicas intrincadas, sobreposições de guitarras, linhas de baixo bem vincadas e texturas de sintetizador para conduzir a narrativa de cada tema. O resultado é um som imersivo que alterna entre momentos de contenção melódica e explosões de energia crua.

Com uma atuação marcante no M.O.U.C.O., os Cat Soup elevaram essa chama musical sem cair numa abordagem excessivamente académica, privilegiando antes uma forte carga emotiva e dramática que estabeleceu uma ligação profunda com o público.

A discografia do quinteto reflete uma clara maturação conceptual e sonora. Se o registo gravado ao vivo na Casa das Artes do Porto, em 2023, capturou a urgência crua e a reatividade orgânica do grupo em palco, foi com o álbum you only 180 (2024) que a banda consolidou o seu rigor de estúdio, refinando o detalhe tímbrico e a precisão da sua arquitetura composicional. Essa trajetória culminou em Come In, Thank You (2026), trabalho no qual os Cat Soup expandiram as fronteiras do seu som ao integrar malhas rítmicas mais complexas e arranjos de sintetizador visivelmente mais densos e atmosféricos.

Sem necessidade de artifícios nem de letras explícitas, os Cat Soup provaram que a música instrumental feita em Portugal possui espaço, vitalidade e um público disposto a mergulhar nas suas viagens sonoras.

Após a atuação dos Cat Soup, subiu ao palco o quarteto francês BRUIT≤ (lê-se Bruit, sendo que o símbolo “menor ou igual” não é mero adorno), uma banda que se recusa a ser ruído de fundo numa era em que o consumo de música se tornou tão efémero quanto uma notificação de telemóvel. Vindos de Toulouse, nasceram da necessidade de rasgar as convenções do post-rock moderno, fundindo o peso da saturação elétrica com a precisão orgânica da música neoclássica.

A banda não se limita a compor faixas; constrói verdadeiras arquiteturas sonoras de um dramatismo quase cinematográfico. O seu som é sustentado por contrastes extremos: passagens de violoncelo e violino que roçam a fragilidade do silêncio, subitamente soterradas por vagas imprevisíveis de guitarras saturadas e por uma bateria devastadora.

Com uma formação constituída por Clément Libes (baixo, violino e produção), Théophile Antolinos (guitarra), Luc Blanchot (violoncelo) e Julien Aoufi (bateria), os BRUIT≤ destacaram-se pela forma como equilibram o analógico e o visceral. A presença das cordas acústicas não serve como adereço estilístico, mas antes como a espinha dorsal de arranjos que remetem tanto para Godspeed You! Black Emperor e Mono como para compositores vanguardistas contemporâneos.

A postura do grupo é assumidamente política. Avessos à lógica do algoritmo e à mercantilização da arte, utilizam a sua música para abordar a emergência ecológica, a opressão capitalista e a alienação digital.

O percurso discográfico dos BRUIT≤ é marcado por uma evolução concisa, mas de enorme impacto. Estrearam-se em 2018 com o EP Monolith, um cartão de visita que rapidamente captou a atenção da cena underground. A consagração chegaria com o aclamado álbum de estreia The Machine Is Burning and Soon Anyone Will Be Free to Burn It (2021), uma obra apocalíptica e conceptual sobre a derrocada dos sistemas modernos. Já sob o selo da prestigiada Pelagic Records, o quarteto explorou um lado mais contemplativo e espacial no EP Apologie du temps perdu vol. 1 (2023), culminando no segundo longa-duração, The Age of Ephemerality (2025), onde refinam a sua crítica à cultura efémera contemporânea através de uma produção técnica irrepreensível e de uma agressividade orquestral ainda mais apurada.

Ao vivo, o quarteto transformou o concerto numa experiência física e imersiva, onde a parede de som e o rigor clássico demonstraram que o ruído, quando cuidadosamente esculpido, continua a ser uma das formas mais puras de libertação.

A noite revelou-se uma celebração da música enquanto linguagem sem fronteiras, capaz de unir rigor técnico, emoção e reflexão crítica. Num tempo dominado pela velocidade e pela efemeridade, ambas as bandas demonstraram que ainda há espaço para obras exigentes, imersivas e profundamente transformadoras. No final, ficou a certeza de que o ruído, quando moldado com visão e convicção, pode ser tão iluminador quanto o próprio fogo de Prometeu.

 

Texto: David Costa

Fotos: Mário Gouveia