Dia 06 de agosto de 2026, o areal de Vila Praia de Âncora acorda sob um azul enganador, mas o ar já carrega o calor denso que antecede a tempestade de distorção. Hoje não é uma quinta-feira qualquer no Sonic Blast. O arranque do festival traz a promessa de um ritual de peso, poeira e maresia.
À medida que o sol sobe e aquece as areias do norte, uma sombra diferente começa a projetar-se sobre o recinto. É a ascensão, o triunfo do stoner, do doom e do psychedelic rock mais soturno que, ano após ano, transforma esta vila piscatória no epicentro da música pesada em Portugal. A brisa atlântica tenta arrefecer os corpos, mas a energia que se acumula junto aos palcos faz ricochete entre as dunas e o oceano.
A atmosfera do dia de hoje sintetiza a essência do festival com a presença de:
FREE RIDE -Groove Psicadélico, Acid Rock
Hailing de Madrid, Espanha, os Free Ride são uma das propostas mais refrescantes e contagiantes da cena Heavy Psych e Stoner Rock da Península Ibérica. Formados com a missão clara de resgatar a liberdade libertária dos anos 70 e fundi-la com o peso contemporâneo, o trio espanhol entrega um som expansivo, solarengo e rasgado pela distorção.
A fórmula dos Free Ride assenta numa secção rítmica elástica e num trabalho de guitarra brilhante, carregado de pedais de fuzz, wah-wah e linhas melódicas hipnóticas. Cruzando a energia desértica dos Kyuss com a alma psicadélica dos Hendrix Experience ou Dust, a banda constrói pontes perfeitas entre a canção estruturada e longos jams instrumentais.
“Um bilhete de ida para uma viagem sem destino: rock psicadélico de alta combustão que cheira a gasolina, poeira do deserto e válvulas a escaldar.”
Com uma reputação em crescimento acelerado nos circuitos alternativos ibéricos e presença habitual em festivais do género, os Free Ride são paragem obrigatória para quem procura groove, peso e boa vibração sónica.
CLAMM – Urgência Punk, Tensão Pós-Industrial e Agressividade Crua
Diretamente da fervilhante cena underground de Melbourne, Austrália, os CLAMM são um autêntico soco no estômago de agressividade Punk e Post-Punk. O trio australiano constrói um som urgente, denso e sem rodeios, canalizando a frustração da vida urbana moderna, a ansiedade social e o colapso ambiental em rajadas de som curtas e devastadoras.
A música dos CLAMM vive do ruído saturado e da repetição hipnótica: a bateria seca e implacável emparelha com um baixo distorcido até ao limite, servindo de tapete para guitarras cortantes e vocais gritados com verdadeira dor de garganta. Há uma ligação clara à energia de nomes como Idles, Metz ou Amyl and the Sniffers.
“Uma descarrilação sónica de pura urgência: o punk reduzido à sua essência mais visceral, onde cada barra de som parece prestes a explodir.”
Com atuações ao vivo conhecidas pela entrega física total e pela ausência de filtros, os CLAMM afirmam-se como uma das bandas mais honestas e necessárias da nova vaga do rock pesado e anguloso.
Textos: David Costa
Fotos: Mário Gouveia.