O SonicBlast Fest afirmou-se como o epicentro da música pesada e psicadélica no Sul da Europa. Nascido em 2011 na vila costeira de Moledo, o festival cresceu organicamente sem perder a sua essência Do It Yourself, tornando-se um ponto de encontro obrigatório para os amantes de Stoner Rock, Doom Metal, Heavy Psych e Sludge.
A recente transição para a Praia da Dúnia, em Âncora, permitiu ao evento expandir o recinto e reforçar a logística de campismo, sem sacrificar a proximidade com o mar e o pinhal. A curadoria do SonicBlast prima pelo equilíbrio entre lendas internacionais do underground e novos talentos da cena ibérica. Com a premissa de um ambiente descontraído, o festival promove uma simbiose única entre o peso das guitarras, a cultura do surf e o espírito de comunidade.
Mais do que um alinhamento de concertos, o evento oferece uma experiência imersiva onde riffs arrastados, fuzz saturado e paisagens sonoras hipnóticas ecoam à beira-mar. Esta identidade singular e a lealdade às suas raízes são o grande íman que atrai milhares de festivaleiros de vários cantos do globo ao litoral norte de Portugal.
Esta evento realiza-se de 6 a 8 de agosto de 2026, com warm-up a 5 de agosto com a seguinte “grelha” de arranque de espectáculos:
Wizard Master – A Magia Obscura dos rituais Analógicos e Fuzz Sem Fim
No vasto e nebuloso universo do Stoner Doom, a Áustria deu à luz um dos segredos mais magnéticos do underground europeu contemporâneo: os Wizard Master. Emergindo das sombras com uma devoção cega ao som vintage, o trio austríaco é uma máquina do tempo afinada nos graves mais profundos dos anos 70.
A sonoridade do grupo é uma verdadeira celebração do ritual analógico. Riffs pesados e arrastados, profundamente impregnados de fuzz e wah-wah, chocam com ritmos hipnóticos que evocam o espírito seminal dos Black Sabbath e a aura psicadélica dos Electric Wizard. A voz ecoa entre o mistério e a feitiçaria, embalada por letras sobre misticismo antigo, ocultismo e fita de rolo a saturação máxima.
Após causarem impacto na cena com os brutos Fuzzilik (2020) e Phase 3 (2022), afirmaram-se definitivamente em 2023 com Ablanathanalba — um registo denso e envolvente lançado pela incontornável Electric Valley Records.
Para os devotos da distorção crua e dos ambientes densos e nebulosos, os Wizard Master não oferecem apenas música: conjuram uma verdadeira experiência hipnótica, onde o tempo desacelera e o peso da guitarra reina absoluto.
Spin The Skull Gravidade, Fuzz, Alucinação e a Viagem Sónica
Surgidos da força do underground do norte de Portugal, os Spin The Skull são uma das propostas mais magnéticas para os devotos das frequências graves e dos ritmos arrastados. Movendo-se com mestria na interseção entre o Stoner Rock, o Heavy Psych e o Doom Metal, a banda constrói uma sonoridade que é tanto uma marretada de peso como uma viagem psicadélica sem regresso.
A receita sónica do grupo assenta numa parede inquebrável de distorção fuzz, influenciada pelo espírito seminal dos anos 70 e pela densidade do rock do deserto dos anos 90. Entre riffs de guitarra encorpados, linhas de baixo hipnóticas e uma bateria cavalgante, as suas composições oscilam com naturalidade entre o transe lento e explosões cruas de pura energia.
Com uma atitude puramente DIY e uma entrega visceral em palco, os Spin The Skull afirmaram-se como uma presença habitual nas salas e festivais de referência do circuito pesado nacional — com destaque para o SonicBlast. Para quem procura um som denso, nebuloso e carregado de eletricidade, a viagem com os Spin The Skull é de passagem obrigatória.
Capela Mortuária -Riffs no Caixão, Thrash na Veia e a fábrica de produção do Mosh Pit
Se o nome sugere o silêncio soturno de um velório ou o misticismo do Black Metal, bastam três segundos de escuta para desfazer qualquer ilusão. Os Capela Mortuária, vindos de Salamonde (Vieira do Minho) e consolidados no ecossistema de Braga, são uma autêntica tempestade de ruído: o que praticam é, sem rodeios nem panos quentes, “Thrash Metal Fodido”.
A origem da designação é tão caricata quanto autêntica: nos primeiros dias, o grupo ensaiava num anexo da residência paroquial local, situado literalmente por cima da capela mortuária da aldeia. A alcunha pegou e batizou um dos projetos mais urgentes do crossover nacional.
Rompendo com floreios técnicos, a sua sonoridade colide a velocidade rápida do Thrash clássico com a atitude crua do Hardcore e do Punk. O resultado é uma descarga ininterrupta de adrenalina feita à medida para o mosh pit.
Depois de causarem estragos com o EP de estreia Ossadas, o quinteto editou em 2023 o seu primeiro longa-duração, Monstro (via Larvae Records) — uma verdadeira marretada sónica que cimentou o seu estatuto na cena pesada. Com presença habitual em palcos de referência como o SonicBlast, os Capela Mortuária provam que a energia do metal subterrâneo em Portugal está mais viva do que nunca.
Bongzilla – Fumo, Riffs e o Legado da Distorção
Se o Sludge Metal tivesse uma banda sonora oficial para o submundo, o nome dos Bongzilla estaria gravado a fogo no topo da lista. Formados em Madison, Wisconsin, em 1995, os mestres do Stoner Doom construíram uma carreira assente num pilar inegociável: riffs esmagadores, afinações no limite do grave e um amor incondicional pela cultura da canábis.
A sonoridade da banda é um monólito de peso. Cruzando a lentidão hipnótica dos Black Sabbath com a agressividade crua de Eyehategod, o som dos Bongzilla é dominado pela parede de som distorcida e pelas vocais viscerais de Mike “Muleboy” Makela. Discos como Gateway (2002) e o aclamado Amerijuanican (2005) — gravado pelo icónico Steve Albini — cimentaram a sua reputação como pilares do género.
Após um hiato prolongado, o trio regressou em força com Weedsconsin (2021) e o recente Dab City (2023), provando que a sua receita de fuzz denso e ritmos arrastados continua tão afiada quanto no primeiro dia. Mais do que uma banda de culto, os Bongzilla são uma instituição do underground mundial, presença obrigatória para quem celebra a verdadeira gravidade do Heavy Metal.
Volksradiomoos – O Ritual Sónico de Frequências Obscuras e Fumo de Madrugada Volksradiomoos
Quando os amplificadores se desbalçam e o som dos palcos principais se apaga, a verdadeira celebração do underground transfigura-se na cabine. É desta forma que Volksradiomoos assume o controlo, transformando o fim de noite de festivais como o SonicBlast num ritual imersivo de puro garimpo sónico.
Longe do formato tradicional da música de dança comercial, o seletor associado à belga Radio Scorpio opera como um curador de relíquias. Os seus DJ sets são autênticas viagens de exploração sem fronteiras de género: um mapa denso que cruza o Stoner Rock, a psicadelia pesada, o Space Rock e o Krautrock, com incursões cirúrgicas pelo Proto-Doom, Post-Punk e até ao metal mais obscuro.
Mais do que a técnica de transição rápida, a força de Volksradiomoos reside no critério cirúrgico da seleção musical. Conectando clássicos esquecidos dos anos 70 aos lançamentos mais raros do circuito independente atual, ele mantém o transe e a eletricidade no ar até às primeiras luzes da manhã. Para quem recusa recolher aos aposentos enquanto houver bom som para descobrir, o seu set é o porto de abrigo perfeito no meio do fumo e da poeira da madrugada.
Texto: David Costa
Fotos: Mário Gouveia