Imagens de um ponto sem retorno

Desde a aurora da humanidade, o ser humano procurou transmitir mensagens — das pinturas rupestres às plataformas digitais. Sempre com o mesmo propósito: contar, alertar e dar sentido ao mundo.

Entre essas mensagens, nenhuma é tão persistente como a pergunta essencial: de onde viemos e para onde vamos. A investigação da origem da espécie caminha lado a lado com a inquietação sobre o seu destino. O futuro apresenta-se como sistema de variáveis possíveis e indeterminadas, aberto a múltiplas previsões.

À medida que o tempo passa, as previsões vão perdendo determinadas variáveis, convergendo cada vez mais para um fim, o desaparecimento da vida humana tal como a conhecemos -o fim do mundo.

Mas essa alegoria de visões dramáticas, mensagens espirituais e políticas, que caracterizam a visão do “Apocalipse” servem também de revelação e alerta para eventos que vão acontecer.

Mas e se os eventos já estiverem em marcha, encadeados na encruzilhada do que é racional e irracional, como poderíamos reconhecê-los? Como retratar essa complexidade?

Através da arte, como a exposição fotográfica documental da agência France-Press que retrata as rupturas sócio-políticas e humanas que encaminham a humanidade para um ponto sem retorno. Composta por 23 imagens impactantes e um filme alertando para o efeito do bloqueio e da guerra nos seres marinhos do estreito de Ormuz, mostra que a vida e a arte são para serem sentidas, para além de uma lógica fragmentada e fútil de um feed de noticiário.

Narrada por um manequim despido com a cabeça coberta por plásticos, uma metáfora para a desumanização contemporânea, com a voz da artista Ana Deus vocalista dos “Três Tristes Tigres” e dos “Ban” cuja performance intensa e artificial, remete-nos para uma contagem decrescente de um período de transição para o fim.

A exposição encontra-se em exibição até ao dia 30 de agosto de 2026, no Museu de Lamas, articulando-se com os eventos de verão da região, como o Basqueiral.

 

Texto: David Costa

Fotos: Mário Gouveia