Emergindo do eixo Espinho/Porto e no ativo desde 2016, os Summer of Hate afirmam-se como uma das propostas mais intensas, envolventes e singulares do shoegaze contemporâneo português. O coletivo edifica a sua identidade sonora sobre uma premissa tão simples quanto avassaladora: esculpir a beleza através da densidade e do volume extremo.
A arquitetura musical dos Summer of Hate assenta numa autêntica e impenetrável “muralha de som”. Múltiplas camadas de guitarras cruzam-se para criar paisagens ruidosas, hipnóticas e profundamente melódicas, impulsionadas por ritmos de inspiração global. Em palco, souberam cativar o público mesmo sob temperaturas escaldantes, numa experiência em crescendo, simultaneamente física e sensorial. Com uma formação alargada, assente em três guitarras em simultâneo, os seus concertos transformam-se em viagens imersivas, onde a delicadeza vocal flutua sobre um mar elétrico em constante ebulição.
“O ponto de encontro perfeito entre o caos ruidoso e a delicadeza celestial: uma tempestade sónica de três guitarras a desenhar o novo shoegaze nacional.”
Com o duplo registo Blood & Honey (2026) — uma obra ambiciosa que oscila com mestria entre a experimentação radical e o apelo melódico —, os Summer of Hate consolidam em definitivo o seu estatuto como uma das forças mais marcantes e imperdíveis do underground nacional.
Por volta das 16h, o ambiente junto ao Stage 3 ganhou outra energia com a chegada dos TurboNegro. A banda agraciou os fãs com uma concorrida sessão de autógrafos, onde não faltaram assinaturas em discos, t-shirts e memórias para guardar. Mais do que garantir a última peça de coleção ou a fotografia da praxe, o momento transformou-se numa verdadeira oportunidade para o público dialogar, trocar impressões e partilhar o entusiasmo diretamente com os músicos. A proximidade e a boa disposição da banda marcaram uma tarde memorável para quem acompanha o grupo de perto.
De seguida, originários da pulsante cena DIY de Los Angeles, Califórnia, os Primitive Ring são um dos segredos mais genuínos e empolgantes do novo underground de garagem norte-americano. Operando no circuito independente, o projeto adota uma filosofia sem floreios: som elétrico, cru e capturado com a urgência e a imperfeição intencional da estética lo-fi.
A música dos Primitive Ring destaca-se pela sua economia de recursos e eficiência sónica. Em vez de arranjos sobrecarregados, a banda aposta em repetições ritmadas, baixos pulsantes e guitarras rasgadas por pedais vintage que parecem gravados numa cave escura. O som oscila entre o ataque direto do proto-punk e passagens mais arrastadas e psicadélicas, lembrando a energia crua de editoras como a In The Red Records ou a Castle Face.
“O rock reduzido ao seu esqueleto mais visceral: uma espiral de distorção de garagem, batidas primitivas e urgência underground.”
Com uma presença assídua em caves, salas independentes e festivais focados no circuito psych/punk, os Primitive Ring são a prova de que o rock de garagem continua bem vivo na sua forma mais pura e sem concessões comerciais.
Texto: David Costa.
Fotos: Mário Gouveia.