Lamas em Chamas 2026: A Prova de Fogo

É sob um ambiente de pura celebração do metal nacional que o Parque de Santa Maria de Lamas volta a erguer o seu altar ao peso. A 5.ª edição do Lamas em Chamas prometia uma maratona sonora sem tréguas, arrancando pontualmente com a abertura de portas às 15:00 e desenhando uma viagem descendente pelas vertentes mais pesadas do género — do heavy metal clássico ao baluarte soturno de bandas como Moonshade, Anzv e Okkultist.

Contudo, os holofotes do arranque da tarde estavam virados para a primeira banda no alinhamento: os Crimson Legacy.

Estreias absolutas em palco carregam sempre uma dose acrescida de responsabilidade, mas os Crimson Legacy entraram em cena determinados a não deixar créditos por mãos alheias. Praticantes de um heavy metal de raízes tradicionais e de matriz old school, o quinteto da casa serviu de ignição para o público que começava a compor o recinto.

O grande ponto focal da atuação esteve na prestação vocal. Samuel Silva revelou-se autêntica força da natureza em palco — um animal à espera de ser solto da jaula – uma energia acumulada pronta a disparar assim que o primeiro acorde soou.

Buscando inspiração e tessitura no espectro clássico de mestres como Ronnie James Dio, a prestação vocal assentou numa presença de palco vertiginosa e numa capacidade de alternar entre o poder melódico e aquele alcance rasgado tão característico do género. Para uma banda a dar os seus primeiros passos ao vivo, a coesão estética e o carisma demonstrado no palco de Lamas mostraram que a força motriz está lá toda.

O fogo estava apenas a começar. A abertura dos Crimson Legacy estabeleceu o mote para o resto da tarde, preparando o terreno para a descarga de thrash dos Keimar e a fúria dos Infraktor que se seguiriam no cartaz.

O Lamas em Chamas subiu drasticamente a rotação com a entrada dos Keimar, a formação nacional não perdeu tempo e desferiu uma descarga impiedosa de thrash metal puro e agressivo.

Apresentando o recente EP War Is Hell, a banda assentou a sua atuação em riffs mecânicos, secções rítmicas velozes e um ritmo avassalador. O grande destaque esteve na projeção vocal e na atitude de Branco no baixo e voz. Com um registo visceral, áspero e rasgado, a interpretação evocava instantaneamente a escola de Phil Anselmo nos tempos áureos de Pantera, injetando uma dose de groove pesado e atitude crossover, passando pelos terrenos da banda Sepultura, tocando “Territory”. um teste de fogo para qualquer grupo de thrash/groove metal, e encaixou como uma luva no registo vocal e na atitude dos Keimar.

Aquela secção rítmica pesada e os riffs marcados do clássico do Chaos A.D. deram o pretexto perfeito para a frente de palco explodir por completo. Quando a voz áspera e rasgada atacou as linhas do Max Cavalera, o público respondeu na mesma moeda. Foi um dos momentos mais altos e viscerais do início de tarde no festival.

Apoiado pela precisão cirúrgica de Vicente e Kiko nas guitarras e pelo pulso frenético de Bessa na bateria, o concerto dos Keimar serviu de ponte perfeita entre o início da tarde e a fúria que se avizinhava com os Infraktor. Uma demonstração curta, direta e sem concessões melódicas que deixou o recinto totalmente em brasas.

A Demolição de Death/Thrash dos Infraktor carregou no palco Lamas em Chamas sem margem para amaciamentos. Se os Keimar tinham deixado o recinto em brasas, os veteranos de Aveiro entraram com o pé no acelerador e sem olhar a travões: full throttle do primeiro ao último segundo.

A banda descarregou uma autêntica avalanche de death/thrash metal, ancorada nos temas do devastador álbum Exhaust. O ataque duplo de guitarras de Carlos Almeida e Ricardo Martins disparou riffs cortantes e cirúrgicos, enquanto a secção rítmica de Miguel Pinto e Francisco Martins sustentava um autêntico rolo compressor. À frente das operações, Hugo Silva vocalizou com a violência e a autoridade de quem domina o palco, puxando o público para círculos de mosh cada vez mais largos.

A transição do heavy/thrash do início da tarde para o peso denso e visceral dos Infraktor funcionou como o ponto de viragem do festival. Sem pausas prolongadas ou conversas acessórias, a atuação foi uma lição de precisão, potência e agressividade pura que consolidou o final da tarde no recinto.

Às 19:50 a Cavalaria Speed Metal dos Wanderer tomou o pôr do Sol e o palco para mudar drasticamente a frequência sonora do festival. Depois da violência extrema e gravidade dos Infraktor, os portuenses trouxeram a velocidade vertiginosa e a energia eletrizante do speed metal de cariz clássico.

A banda assentou o concerto em cavalarias rítmicas imparáveis, puxando por temas do trabalho Awakening Force. As guitarras de Sérgio Ferreira e André Silva dispararam duelos de solos relâmpago, enquanto a voz de Nuno Sotto cortou o ar do recinto com agudos rasgados e refrões contagiantes, cozinhados na melhor tradição da New Wave of British Heavy Metal e do speed alemão.

A transição para a noite deu-se ao som de punhos no ar, headbanging incessante e crowd-diving. O concerto dos Wanderer trouxe uma lufada de ar fresco, celebrando as raízes mais puras do género com uma precisão técnica e uma entrega em palco que mantiveram a fasquia do festival no topo.

Com a noite já instalada sobre o Parque de Santa Maria de Lamas, coube aos Blind the Eye assumir a transição para a fase mais negra e densa do festival. Jogando praticamente em casa, o quinteto entregou uma performance marcada por uma solidez técnica exemplar e uma presença de palco avassaladora.

Puxando pelo repertório do aclamado The Purity of Violence, a banda descarregou uma tempestade de riffs melódicos apoiada numa secção rítmica pesadíssima. No entanto, o momento mais marcante e aclamado do concerto deu-se com a subida ao palco de Namana Satana, vocalista dos Infernal Kingdom. Juntos, atacaram a avassaladora “The Humiliation of Charon”, num dueto gutural dantesco que combinou o registo visceral de Namana com a projeção de Dinho.

A fúria do death metal construída pelo grupo abriu caminho para a entrada dos Moonshade.

Já com a noite totalmente instalada, a fasquia elevou-se para um patamar de pura teatralidade e peso emocional com a entrada dos Moonshade. O grupo portuense, uma das referências maiores do metal extremo melódico em Portugal, tomou o palco do Lamas em Chamas para desferir um concerto épico e visceral, com a escuridão melódica do metal extremo.

Navegando pelos temas do aclamado As Days Grow Dark, a banda construiu uma parede de som imponente. As guitarras de Pedro Quaresma e Luis Schmidt desenharam harmonias cortantes e solos carregados de sentimento, enquanto a secção rítmica mantinha uma pulsação devastadora. À frente da formação, Ricardo Pereira entregou uma prestação vocal emotiva e agressiva, alternando entre guturais profundos e momentos de pura entrega cénica que prenderam a atenção do público do primeiro ao último segundo.

A atmosfera sombria e grandiosa dos Moonshade assentou como um manto sobre o recinto, criando o momento de maior intensidade dramática da noite até ao momento e preparando o terreno para a fúria ritualística dos Anzv e a descarga final dos Okkultist.

O Lamas em Chamas mergulhou na sua fase mais visceral e obscura com a subida dos ANZV ao palco. A banda do Porto, que tem vindo a afirmar-se como uma força incontornável do black/death metal nacional e europeu, não entregou apenas um concerto — convocou uma autêntica liturgia de sombras.

Ancorados no imaginário esotérico de Gallas e do mais recente KUR, o quinteto apresentou uma parede sonora sufocante de guitarras dissonantes e bateria implacável. Mas o centro magnético da performance esteve na figura do seu vocalista: movendo-se com uma solenidade hipnótica, parecia um autêntico messias negro, um Rasputin do século XXI a reger uma congregação em transe. Em palco, a presença enigmática dos músicos — pontuada pelas vestes solenes do vocalista e por um pequeno altar que emanava efeitos fumegantes — construiu um cenário minimalistamente agressivo. Esta iluminação e cenografia ritualística criaram uma atmosfera de transe coletivo, onde o profano e o sagrado se fundiram sem tréguas, controlando o recinto até ao último acorde.

A prestação dos ANZV elevou a noite a uma dimensão ritualística e cerimonial, deixando o público completamente hipnotizado pela densidade da sua proposta sonora. Um momento de pura tempestade estética que preparou com maestria o fecho avassalador reservado aos Okkultist.

O ponto final da noite, coube aos Okkultist a missão de fechar com chave de ouro a 5.ª edição do Lamas em Chamas. Se o festival já tinha percorrido do heavy metal tradicional à escuridão ritualística dos ANZV, a formação lisboeta tratou de selar o recinto com uma descarga final de pura violência e mestria de death metal.

Comandados pela presença magnética e pela voz devastadora de Beatriz Mariano, a banda não deu margem para tréguas. O ataque feroz de guitarras disparou riffs denso-cortantes apoiados numa secção rítmica imparável. Entre temas do seminal Reinventing Evil e malhas do mais recente O.M.E.N., o grupo transformou o Parque num último e gigantesco mosh pit, canalizando toda a energia acumulada ao longo do dia.

O concerto dos Okkultist foi a coroação perfeita para um dia memorável em Santa Maria de Lamas: um encerramento fulminante, carregado de atitude, peso e uma celebração absoluta da vitalidade do metal feito em Portugal.

Ainda que a jornada tenha sido pontuada por constantes atrasos técnicos e testes de som morosos na transição entre bandas — testando por vezes a paciência do público —, o saldo final do Lamas em Chamas 2026 não deixa margem para dúvidas. O festival revelou-se uma explosão em crescendo e fulgurante: partindo da chama clássica dos Crimson Legacy e da fúria thrash dos Keimar, passando pela descarga mecânica dos Infraktor, o galope dos Wanderer, o dueto marcante dos Blind the Eye com Namana Satana, a imponência dos Moonshade e o ritual dos ANZV, até culminar no encerramento devastador dos Okkultist.

Superando as adversidades logísticas através da entrega visceral de cada formação, esta 5.ª edição não só afirmou o recinto de Santa Maria de Lamas como um ponto de peregrinação obrigatório, como gravou mais um capítulo fundamental na história do metal em Portugal.

Texto de David Costa.

Fotos de Mário Gouveia.