Raio, Relâmpago e Trovão: o pulsar dos Blood Red Shoes

O espetáculo de 29 de setembro, no M.OuCo, abriu o outono com a intensidade de um fenómeno elétrico. A noite transformou-se numa autêntica tempestade sonora, personificada pelas atuações dos Bad Tomato e dos Blood Red Shoes. Os primeiros assumiram o papel do raio, a descarga inicial que antecedeu o relâmpago e o trovão estrondoso dos cabeças de cartaz.

Os Bad Tomato abriram a noite com o brilho contagiante que já lhes é característico, evocando a energia descrita no artigo sobre o concerto dos Maruja (ver Memento Mori Maruja). Desta vez, a formação trouxe uma novidade marcante: a entrada de Ana Monteiro no baixo e nos backing vocals, criando um contraste envolvente e dinâmico com a voz de Manuel Casanova.

Após a descarga elétrica dos Bad Tomato, chegou o brilho do relâmpago e a força da trovoada dos Blood Red Shoes, aquecendo o ambiente e gerando uma verdadeira onda de choque. Formados em 2004, em Brighton, Laura-Mary Carter (voz e guitarra) e Steven Ansell (bateria e voz) compõem um dos duos mais viscerais do rock alternativo britânico. O nome da banda inspira-se numa história sobre Ginger Rogers, que terá dançado até os seus sapatos sangrarem, uma metáfora perfeita para a entrega física e sem reservas que define o grupo.

Sem baixista e sem recurso a pistas pré-gravadas, a banda constrói uma sonoridade surpreendentemente densa. O seu maior trunfo reside no contraste entre os riffs pesados de Carter, impregnados de fuzz, noise e texturas shoegaze, e a bateria musculada de Ansell, complementada por vocais partilhados que acrescentam uma forte carga dramática às composições.

A discografia da banda reflete uma evolução constante: da urgência punk do álbum de estreia Box of Secrets (2008) ao minimalismo analógico do disco homónimo, lançado em 2014. Após um período de desgaste, reinventaram-se através da incorporação de elementos eletrónicos e industriais em Get Tragic (2019) e no sombrio Ghosts on Tape (2022).

Com a criação da sua própria editora independente, a Jazz Life, o duo mantém controlo criativo total, provando que o rock alternativo continua vivo através da atitude, do ruído e da independência artística.

Ao longo da noite, o fluxo sonoro revelou-se intenso e progressivamente ascendente, com os Blood Red Shoes a ampliarem o impacto da descarga elétrica à medida que o público preenchia o M.OuCo. O concerto destacou-se pela precisão de Steven Ansell na bateria, pela dinâmica vocal e pela forte coesão em palco. O ambiente de intimidade ficou especialmente vincado quando a banda convidou um espectador a subir ao palco para tocar tamborim durante “Screams”. A energia do rock independente e a iluminação dramática encerraram uma atuação eletrizante, intensa do primeiro ao último minuto.

Texto: David Costa.

Fotos: Mário Gouveia