Tempers – Nocturna Elétrica

O espetáculo do dia 18 de outubro, no CCOP, revelou-se uma viagem noturna, com a dupla dos Tempers a conduzir-nos pela noite, ao pulsar mecânico e contínuo da arquitetura musical de um futuro cinematográfico e hipnotizante.

A atuação evocou paisagens urbanas frias, banhadas por luzes artificiais, servindo de prisma para o néon e refletindo introspeção, ansiedade existencial, dispersando nostalgia eufórica, velocidade e ficção.

Com uma produção musical limpa, reluzente, maximizada e focada em grooves dançáveis de grande escala, o duo vindo de Nova Iorque, liderado pela voz enigmática de Jasmine Golestaneh, afirma-se como uma das propostas mais elegantes e estimulantes da darkwave contemporânea.

Com uma discografia marcante que transita do despojamento industrial de Services (2015) aos arranjos sofisticados e cinemáticos do recente Delusion (2026), passando pelo conceptual Junkspace e pela consolidação melancólica de Private Life e New Meaning, a banda tem redefinido os limites da eletrónica soturna. Os Tempers demonstram, assim, que os sintetizadores dos anos oitenta não servem apenas para evocar o passado com saudosismo, mas também para expor as fendas da modernidade líquida, provando que o pulso sintético é perfeitamente compatível com a sombra.

Se o cânone do género nos convida a conduzir um desportivo sob um pôr do sol alaranjado, os Tempers transformam essa viagem num périplo noturno sob a chuva miúda, onde a velocidade cede lugar à introspeção e o néon quente é engolido pela bruma cinzenta.

 

Texto: David Costa.

Fotos: Mário Gouveia.