No fim de semana de 19 e 20 de junho celebramos mais uma edição do “Basqueiral”. Assinalando 10 anos de história, este evento, marcado por espetáculos de música fora do circuito mainstream, propõe despertar emoções alternativas e dar a conhecer uma região única e audaz.
O alinhamento dos espetáculos no dia 19 foi o seguinte:
- O GRINGO SOU EU (BR) Palco Capela
O Gringo Sou Eu afirma-se como uma das vozes mais viscerais e autênticas no panorama vibrante da música de intervenção contemporânea. Projeto a solo de Frankão (Franklin Soares Monteiro), músico e produtor brasileiro radicado em Portugal desde 2010, é uma criação emergente da metamorfose entre eletrónica urbana e ativismo cultural.
A sua sonoridade é marcada por uma fusão contundente: do peso do grime, dub e jungle ao pulsar do tamborzão e dos batuques afro-brasileiros. O resultado é um corpo sonoro físico, quase combativo, onde cada batida transporta urgência. Nas letras, Frankão constrói uma verdadeira proclamação sobre identidade, migração e desigualdade, refletindo vivências periféricas e denunciando assimetrias sociais. Uma mensagem digna do Palco Capela em toda a sua imponência e grandiosidade. .
Para além da música, o artista demonstra um forte envolvimento comunitário, promovendo projetos de inclusão através da arte junto de jovens em bairros sociais. Paralelamente, integra o coletivo HHY & The Macumbas, uma referência na experimentação percussiva e eletrónica.
O seu mais recente álbum, Receita do Povo (2026), sintetiza 15 anos de experiência, cruzando memórias rituais do Brasil com o quotidiano das comunidades ciganas em Portugal. Em palco, frequentemente acompanhado por Lizz Marchi, transforma essa matéria num espetáculo de intensidade coletiva e ancestral.
- YAKUZA (PT) Palco museu.
No pulsante cruzamento entre o jazz contemporâneo e a cultura de dança, os YAKUZA afirmam-se como um dos coletivos mais vibrantes e inovadores da música portuguesa atual. Baseados em Lisboa, o projeto tem vindo a conquistar reconhecimento pela sua abordagem arrojada, onde a liberdade do jazz se encontra com a energia crua do clubbing.
A sonoridade dos YAKUZA nasce dessa fusão híbrida: grooves profundos de baixo e bateria, influenciados por house, techno e UK garage, sustentam harmonias complexas e linhas de sintetizador que evocam a cena jazz londrina. O resultado é uma música em constante movimento, intensa e imprevisível, frequentemente comparada a um “comboio de alta velocidade” pela forma como conduz o ouvinte através de variações rítmicas e explosões melódicas.
Mais do que uma banda convencional, os YAKUZA assumem-se como um coletivo aberto, guiado pela improvisação e pelo espírito colaborativo. Esta liberdade criativa traduz-se de forma particularmente evidente em palco, onde a experiência se torna física e imersiva.
Desde o álbum de estreia AILERON até ao mais recente 2, o grupo tem consolidado uma identidade própria, marcada pela urgência rítmica e pelo experimentalismo. Ao vivo, confirmam o seu estatuto como uma das propostas mais excitantes do circuito nacional.
- SCÚRU FITCHÁDU (PT) Palco Basqueiro.
Scúru Fitchádu — projeto a solo de Marcus Veiga — emerge em Almada, em 2016, como uma força disruptiva e incontornável que rapidamente ganhou notoriedade no ecossistema da música alternativa portuguesa pela sua abordagem sonora crua e politicamente carregada, descrita pelo próprio como “funaná má onda” ou afro‑punk eletrónico.
O núcleo do projeto reside na combinação explosiva entre tradição e vanguarda. Originário das raízes da música cabo‑verdiana — especialmente do funaná —, Scúru Fitchádu funde ritmos ancestrais com a agressividade do punk, hardcore, techno industrial e drum & bass. O resultado é uma paisagem sonora intensa, pautada por batidas frenéticas, baixos distorcidos e a presença simbólica do ferrinho, elemento rítmico tradicional que serve de símbolo para a sua identidade.
Cantadas maioritariamente em crioulo, as letras são um veículo de afirmação política e cultural, abordando temas como a diáspora africana, questionando as formas de pensamento herdadas do colonialismo e a luta por justiça social. Esta dimensão de reflexão crítica confere à sua música um caráter de intervenção urgente.
Em palco, o projeto expande‑se para um formato de banda, proporcionando atuações emocionantes e fisicamente arrebatadoras, já apresentadas em importantes palcos internacionais. Scúru Fitchádu não é apenas um projeto musical — é um manifesto sonoro de tradição, resistência e transformação.
- PARQUET (FR) Palco museu.
Entre a cultura clubbing e a energia do rock experimental, os franceses Parquet destacam-se-se como uma das obras mais originais da cena alternativa europeia. Oriundos de Lyon e formados por volta de 2015, o quinteto produziu um conceito arrojado: criação de música techno e eletrónica de dança exclusivamente com instrumentação analógica típica de uma banda de rock.
A sua identidade sonora desenvolveu-se através do ruído físico, do noise rock e das estruturas repetitivas, hipnóticas e mecanizadas do techno industrial. Guitarras distorcidas, baixos pulsantes e baterias rigorosas são manipulados como loops orgânicos, construindo paisagens sonoras onde o corpo é constantemente desafiado para o movimento.
Em palco, coletivo de músicos virtuosos da cena experimental francesa: Sébastien Brun (bateria, eletrónica e fundador do projeto), Jean-François Riffaud (baixo elétrico e sintetizadores de baixo), Guillaume Magne (guitarra),Nicolas Cueille (guitarra), Simon Henocq (eletrónica), elevam essa linguagem a um novo patamar. As atuações são verdadeiras maratonas sensoriais, onde a fronteira entre concerto e rave se dissolve. Induzindo o público a estados de transe coletivo, através de sequências prolongadas e dinâmicas acumulativas.
Com lançamentos como Sparkles & Mud e SPARKLES, editados pela Carton Records, o grupo gerou uma estética singular, onde o avant-rock e a pista de dança coexistem em perfeita tensão.
- SERVO (FR) Palco Basqueiro.
No cruzamento entre o pós-punk sombrio e a intensidade do noise rock, os franceses SERVO afirmam-se como uma proposta magnética e imersiva no panorama europeu underground. Oriundos de Rouen, o trio construiu uma identidade sonora densa e ritualística, alinhada com editoras de culto como a britânica Fuzz Club Records e próxima de projetos como MAQUINA. na exploração de ritmos repetitivos e hipnóticos.
A música dos SERVO vive de um equilíbrio tenso entre melancolia e explosão. Guitarras angulares e carregadas de distorção entrelaçam-se com linhas de baixo profundas e pulsantes, enquanto vozes graves conferem um tom austero e quase litúrgico às composições. A influência do motorik — esse pulso mecânico e incessante — atravessa a sua estética, criando uma sensação de movimento contínuo e inquietante.
Em palco, a banda eleva essa linguagem a um nível quase transcendental. Os seus concertos são frequentemente descritos como uma “missa de ruído”, onde luzes estroboscópicas e repetições rítmicas conduzem o público a um estado de transe coletivo.
Com discos como Alien e Monsters, os SERVO consolidaram um percurso marcado pela intensidade e pela exploração sonora, afirmando-se como uma presença singular na nova vaga do rock psicadélico europeu.
- Os MAQUINA (PT) Palco museu.
No coração da nova vaga do rock europeu, os MAQUINA. apresentam-se como um dos conceitos mais eletrizantes saídos de Lisboa nos últimos anos. Formado em 2021, o trio atingiu notoriedade pela sua estética hipnótica e visceral, misturando a intensidade do rock com a pulsação contínua da cultura de dança.
A identidade sonora da banda baseia-se numa fusão singular entre krautrock, techno industrial, pós-punk e psicadelismo. O resultado é um fluxo sonoro mecânico e envolvente: baterias insistentes, quase industriais, linhas de baixo repetitivas e guitarras saturadas de distorção e ruído, criando um efeito imersivo que transforma cada tema numa dimensão experimental, física e rítmica.
Composto por Halison Peres (bateria e voz), João Pires (guitarra) e Tomás Ribeiro (baixo), o trio define-se frequentemente como uma verdadeira “máquina de dança”, onde a repetição minimalista serve como motor para unir universos distintos — do clubbing ao underground punk.
Desde o álbum de estreia Dirty Tracks for Clubbing (2023) até ao recente BODY TRANSMISSION (2026), a trajetória dos MAQUINA. prima por uma intensa atividade ao vivo. Com centenas de concertos e passagens por palcos internacionais de referência, afirmam-se como um fenómeno energético, onde o corpo é tão importante quanto o som.
Texto: David Costa
Fotos: Mário Gouveia