Golden place of Rock’n’Roll

Dando continuidade à história iniciada no dia anterior, o festival viveu uma metamorfose fenomenal. O que já prometia ser um evento memorável transformou-se num verdadeiro recinto sagrado do Rock’n’Roll, com lotação esgotada, aplausos efusivos e emoções à flor da pele.

Entre moshes frenéticas, crowd-surfing e um surpreendente convite para que um fã subisse ao palco e tocasse bateria com a sua banda favorita, a energia foi contagiante do primeiro ao último acorde. Acima de tudo, o festival consolidou-se como um expoente da cultura rock, elevando-se ao estatuto de autêntica capital do Rock’n’Roll, onde a música, a paixão e a comunhão entre artistas e público atingiram um patamar inesquecível.

Entre os espetáculos, merece especial destaque o trabalho dos DJs, que mantiveram o público envolvido. Com atuações que transformaram cada intervalo num momento de divertimento, demonstraram um entusiasmo comparável à alegria de uma criança ao receber o tão desejado brinquedo como presente de Natal. Animaram e entretiveram o público.

Mas passemos agora aos protagonistas que deram voz, alma e poder a esta celebração do Rock’n’Roll:

Noise At Valve: o som das válvulas levadas ao limite

Vindos de Guimarães, os Noise At Valve representam a nova geração do rock alternativo português, trazendo consigo um som cru, poderoso e sem artifícios. Assumindo-se como talento local, a banda construiu a sua identidade a partir de influências que passam pelo rock alternativo, grunge e hard rock, criando uma sonoridade onde a energia das guitarras e a força da secção rítmica estão sempre no centro das atenções.

Formados por Álvaro Mendes na voz e guitarra, Mário Teixeira no baixo e segundas vozes, e João Piairo na bateria, os Noise At Valve apresentam-se em palco como uma formação clássica de rock, assente em guitarras elétricas, baixo e bateria. A química entre os músicos e a paixão comum pelo rock refletem-se numa atuação intensa e genuína.

Fieis ao nome, os Noise At Valve apostam na saturação natural dos amplificadores a válvulas para construir o seu som. O resultado é uma parede sonora quente e poderosa, inspirada por diferentes correntes do rock alternativo, sem depender de grandes efeitos eletrónicos ou produções excessivas. As influências vão de bandas como Sonic Youth, Joy Division e Foo Fighters, contribuindo para uma identidade musical com peso, melodia e atitude.

Ao vivo, pode esperar-se um concerto direto, intenso e cheio de personalidade, onde o rock surge no seu estado mais puro: guitarras altas, ritmos contundentes e uma energia que passa naturalmente do palco para o público.

 

Correr Andar: canções simples, directas e feitas para moshar.

Nativos de Guimarães, os Correr Andar representam o talento local com uma abordagem descontraída e genuína à música. A banda aposta num rock alternativo com fortes influências pop-rock e punk, privilegiando as canções, as melodias e letras em português inspiradas em histórias do quotidiano e em pequenas observações da vida comum.

Demonstrando uma pretensão para entreter, os Correr Andar conquistaram público através da espontaneidade das suas composições e da forma descomplicada como encaram a música. Os temas combinam riffs memoráveis, uma energia positiva e uma proximidade que rapidamente cria ligação com quem os ouve.

Em palco apresentam-se numa formação clássica de voz, guitarra, baixo e bateria, Diogo Silva, Luís Rocha, Carlos Cardoso, construída em torno de uma sonoridade limpa e acessível. A secção rítmica serve de base para melodias cativantes e para letras que assumem um papel central, permitindo que cada canção conte a sua própria história.

Perfeitos para abrir uma tarde de festival, os Correr Andar criaram um ambiente leve, descontraído e próximo do público. Sem artifícios nem complicações, apresentam um rock português que privilegia a autenticidade, a boa disposição e o prazer simples de tocar e partilhar canções.

 

The Twist Connection: rock’n’roll cru, direto e hipnotizante.

Vindos de Coimbra, os The Twist Connection são uma das propostas mais entusiasmantes do rock português atual. O trio mergulha sem medo nas raízes do rock’n’roll dos anos 50 e 60, mas acrescenta-lhe a rudeza do punk, a energia do garage rock e a intensidade do post-punk, criando um som que soa clássico e contemporâneo ao mesmo tempo.

O grande segredo da banda está na sua fórmula simples e eficaz: canções diretas, ritmos viciantes e uma atitude de palco sem artifícios. À frente do grupo está Carlos Mendes (Kaliman), que assume simultaneamente a bateria e a voz principal, uma combinação pouco comum que lhes confere uma identidade muito própria. A seu lado, Samuel Silva na guitarra e Sérgio Cardoso no baixo completam uma formação minimalista, mas capaz de produzir um som enorme e cheio de personalidade.

Ao vivo, tudo gira em torno do groove, da intensidade e da ligação com o público. As guitarras soam cruas, a secção rítmica mantém uma pulsação constante e a voz de Kaliman conduz cada tema com carisma e energia. O facto de o vocalista estar atrás da bateria, de pé, como num púlpito, cria uma dinâmica diferente da habitual, tornando cada concerto visualmente marcante, musicalmente explosivo e interactivo, descendo do alto do palco para o contacto com o público, partilhando da sinergia que sente com cada elemento do grupo.

Mais do que um simples trio de rock, os The Twist Connection são uma celebração da essência do rock’n’roll: poucas complicações, uma enorme atitude e canções feitas para serem experimentadas, vividas com o volume alto e sem travões.

 

Dapunksportif: rock, groove e energia sem travões

Vindos de Peniche, os Dapunksportif construíram uma essência muito própria dentro do rock português. A banda mistura a força do stoner rock com elementos de electro-rock e dance-punk, criando um som que tanto convida ao mosh pit como à pista de dança. Desde a sua formação em 2004, têm-se vindo a consolidar como um dos projetos mais irreverentes e consistentes do panorama nacional, fiéis a uma abordagem direta, intensa e sem complicações.

Ao vivo, a palavra de ordem é energia. As canções assentam em batidas fortes e repetitivas, linhas de baixo pulsantes, sintetizadores discretos mas eficazes e guitarras carregadas de fuzz. O resultado é um som transcendente e contagiante que dificilmente deixa alguém parado. À frente da banda está Paulo Franco, na voz e guitarra elétrica, acompanhado por João Guincho nas guitarras e na componente eletrónica, com o apoio de baixo e bateria que completam uma máquina rítmica poderosa.

Os Dapunksportif destacam-se precisamente pela forma como fundem o ataque cru do rock com grooves eletrónicos dançáveis, criando concertos intensos, cheios de movimento e adrenalina. Não é apenas um concerto, é uma celebração de rock moderno, vivenciado em alto volume, de corpo inteiro e de alta performance. O Rock’n’Roll não seria o mesmo sem Dapunksportif.

 

Blind Zero: uma das grandes bandas do rock português

Vindos do Porto, os Blind Zero são daqueles nomes que dispensam apresentações para quem cresceu a ouvir rock português nos anos 90 e 2000. Com uma carreira construída entre o grunge e o rock alternativo, criando canções intensas, emotivas e cheias de personalidade. Desde o início, destacaram-se pela capacidade de soar diferentes de quase tudo o que se fazia em Portugal, tornando-se uma referência incontornável da música nacional.

À frente da banda está Miguel Guedes, dono de uma voz inconfundível que se tornou uma das imagens de marca dos Blind Zero. A seu lado, Vasco Espinheira na guitarra, Nuno Espinheira no baixo e Pedro Guedes na bateria formam um núcleo sólido que há décadas mantém vivo o espírito da banda. Em palco, juntam-se frequentemente músicos convidados nos teclados ou numa segunda guitarra, acrescentando ainda mais profundidade ao som.

Mas o que realmente distingue os Blind Zero é a forma como conseguem equilibrar força e melancolia. As guitarras distorcidas convivem com melodias marcantes e letras carregadas de emoção, criando ambientes que tanto convidam à reflexão como à exaltação. Ao vivo, os clássicos que marcaram gerações misturam-se naturalmente com temas mais recentes, num concerto que é ao mesmo tempo uma viagem nostálgica e uma prova de que a banda continua viva, relevante e capaz de emocionar e cativar o público.

 

Wolfmother: riffs, energia e puro rock’n’roll

Se há uma banda capaz de fazer um festival inteiro abanar a cabeça ao som de guitarras gigantes, essa banda é Wolfmother. Vindos de Sydney, na Austrália, liderados pelo carismático Andrew Stockdale, os Wolfmother pegaram na receita do rock clássico dos anos 70 e deram-lhe uma nova vida para o século XXI. As influências de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple estão lá, mas o resultado tem personalidade própria e uma energia contagiante.

Desde o lançamento do álbum Wolfmother, em 2005, o grupo conquistou um lugar especial entre os fãs de hard rock e stoner rock. Temas como“Woman”,“Joker & The Thief” e“White Unicorn” tornaram-se verdadeiros hinos, presença garantida nas playlists de quem gosta de riffs pesados e refrões para cantar a plenos pulmões.

Ao vivo, a fórmula é simples: guitarra com muito fuzz, bateria poderosa e uma presença de palco que não dá descanso. Andrew Stockdale continua a ser o coração da banda, acompanhado por músicos que ajudam a recriar aquele som clássico, cheio de peso e atitude.

Quem viu Wolfmother teve um concerto digno de um estádio de futebol, com o festival lotado e sem complicações: público entusiasmado, braços no ar, crowd-surfing, rock directo, solos incendiários, um convite para uma fã subir ao palco e tocar bateria na sua música favorita, e uma descarga de energia capaz de transformar qualquer recinto numa enorme celebração do rock’n’roll.

Texto: David Costa

Fotos: Mário Gouveia