A banda originária de Manchester, Maruja, regressou a Portugal, em maio, com dois concertos no Porto, nos dias 24 e 25, e uma atuação em Lisboa, no dia 26.
Após o cancelamento da digressão prevista para dezembro, a banda voltou para apresentar a Pain to Power Tour, premiando o Porto com duas datas no M.OU.CO., devido à elevada procura.
A iniciar a noite esteve a banda alternativa contemporânea portuguesa Bad Tomato, oriunda de Lisboa, composta pelos músicos Manuel Casanova (voz e guitarra), Jantonio Silva (bateria), Miguel Albino (guitarra) e João Simões (baixo).
Com um estilo próprio e irreverente, assente em grooves energéticos e modernos, combinam pós‑punk, rock alternativo e elementos eletrónicos, numa dinâmica que funciona como o catalisador perfeito para a proposta dos Maruja.
Transmitindo a sua identidade com urgência, intensidade e amizade — refletida na ligação entre os músicos — os Bad Tomato apresentam guitarras carregadas de energia e distorção, uma base rítmica repetitiva e dançável e um baixo agressivo, como uma lança apontada ao público. A atitude vocal surge descontraída, mas focada na criação de uma vibe envolvente.
Entregam uma atuação que revela o verdadeiro potencial da banda ao vivo, com um som cru, mais sujo e físico, reforçando a sua identidade punk. Trata-se de uma performance que nos mantém ligados, marcada pelo impacto da repetição e pela ausência de grandes momentos de pausa. A interação autêntica e o ambiente quase de ensaio conferem-lhe uma força que supera a experiência de estúdio — uma prestação pensada para ser sentida.
Criava-se energia, momentum para a banda capaz de transmitir uma contenda entre a selva urbana e uma batalha épica pela redenção, este quarteto — constituído por Harry Wilkinson (voz e guitarra), Joe Carroll (saxofone e voz), Matt Buonaccorsi (baixo) e Jacob Hayes (bateria) — cria um universo sonoro com forte carga crítica, misturando post‑punk, art rock, jazz e free jazz, noise rock, punk e até hip hop – os Maruja.
Baseando-se na improvisação e em jams, atribuem à sua música um caráter vivo, caótico e imprevisível. Existe uma constante tensão entre momentos agressivos e explosivos e passagens atmosféricas e contemplativas, culminando em autênticas telas sonoras marcadas por questões sociais e mentais. O resultado é um processo de libertação emocional no público, proporcionando alívio e clareza, com mosh pits intensos e momentos intimistas.
Logo na entrada em palco, a banda conquistou o público, trazendo consigo um cachecol de “FCP Campeão” e gritando “Porto campeão”. A partir desse momento, mesmo que tudo corresse mal, a plateia já se encontrava rendida — mas longe disso: os Maruja proporcionaram uma atuação verdadeiramente arrebatadora.
Só me ocorria a frase: “Nós poucos, nós felizes poucos, nós, um bando de irmãos…” — Rei Henrique V, de William Shakespeare. Estávamos perante um momento inesquecível, que transformou o M.OU.CO. num epicentro de amor universal e rock potente. Harry Wilkinson assumia-se como ator, pregador e maestro, enquanto, juntamente com Joe Carroll, encantava a audiência e desencadeava um frenesim coletivo.
A isso juntava-se uma bateria impactante, com hi-hats que soavam como trovões, e uma dinâmica controlada que permitia à narrativa respirar. O baixo, por sua vez, preenchia o espaço com uma presença sólida e envolvente.
Tudo culminava numa verdadeira ode à vida: um público ativo, entregue ao crowd surfing e à energia constante; um saxofonista que se lançava sobre a multidão, quase derrubando um projetor; um vocalista que abandonava o palco para se misturar no mosh; um apelo ao abraço coletivo e uma preocupação genuína com a saúde mental. Entre tudo isto, ecoava ainda o clamor por uma Palestina Livre. Tudo intenso, tudo imenso.
Um concerto memorável, que confirma uma banda em ascensão e a consolida como uma das propostas mais inovadoras e intensas da música alternativa contemporânea.
Texto: David Costa
Fotos Mário Gouveia